A água é o elemento central através do qual se manifestam a maioria dos impactos da mudança climática — secas mais intensas, cheias extremas, desequilíbrios no regime de chuvas, perda acelerada de geleiras e alterações físico-químicas dos rios. Na Amazônia, maior sistema fluvial transfronteiriço do planeta, esses impactos se multiplicam ao longo do ciclo hidrológico, repercutindo sobre seus ecossistemas e mais de 50 milhões de pessoas.
Para aprofundar esse debate e apresentar respostas estruturadas construídas pelos países amazônicos, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) promoveu, na quarta-feira (12), o evento paralelo ‘Da Ciência à Ação: Gestão da Água para uma Amazônia Resiliente’, em seu pavilhão na Zona Azul da COP-30, no Parque da Cidade, em Belém (PA). O encontro reuniu autoridades de água, cientistas e parceiros internacionais para discutir cooperação regional, monitoramento integrado, o papel das geleiras andinas, a gestão dos sistemas aquíferos e mecanismos de financiamento para uma Amazônia resiliente.
No primeiro bloco da sessão, a coordenadora do Projeto Bacia Amazônica, Maria Apostolova, apresentou aos presentes o Programa de Ações Estratégicas (PAE) para a Gestão Integrada de Recursos Hídricos (GIRH) da região. Adotado pelos países amazônicos em 2017, o PAE foi concebido a partir de uma Visão Compartilhada e de um documento técnico-científico construído com ampla participação social e institucional, a Análise Diagnóstica Transfronteiriça (ADT). Em sua apresentação, Apostolova destacou que o PAE é estruturado em 19 Ações Estratégicas, que fortalecem instituições e marcos legais, aprimoram as capacidades técnicas e tecnológicas dos países amazônicos para a GIRH, promovem a gestão do conhecimento e aumentam a resiliência frente às mudanças climáticas. Sua implementação ocorre atualmente por meio de uma série de projetos, com destaque para o Projeto Bacia Amazônica, que é executado pela OTCA, com implementação do PNUMA e financiamento do GEF.
A Diretora Administrativa da OTCA, Edith Paredes, apresentou o Projeto Sistemas Aquíferos Amazônicos (SAA), lançado durante a COP-30 e com início de execução previsto para 2026, com apoio do GEF e do BID. A iniciativa aprofundará a agenda de implementação do PAE, fortalecendo o conhecimento e a gestão das águas subterrâneas na bacia amazônica — um componente ainda pouco explorado, mas estratégico para a segurança hídrica regional. “Precisamos saber como o Sistema Aquífero Amazônico funciona, qual seu papel no ciclo da água, quais são suas principais fontes de contaminação, qual é a percepção social de sua importância e se nossas instituições estão preparadas para sua gestão”, destacou Paredes.
O Projeto SAA prevê estudos hidrogeológicos, modelagem, georreferenciamento, avaliação de segurança hídrica e projetos-piloto nos oito países amazônicos, promovendo proteção, inovação tecnológica e fortalecimento institucional. A iniciativa também reforçará a integração entre as águas subterrâneas e superficiais e aumentará a capacidade de adaptação dos países às mudanças climáticas.
- Maria Apostolova, coordenadora do Projeto Bacia Amazônica.
- Edith Paredes, Diretora Administrativa da OTCA.
Governança para a segurança hídrica na Amazônia
Oscar Puerta, Diretor de Gestão Integral de Recurso Hídrico do Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia e titular da Rede Amazônica de Autoridades de Água (RADA), apresentou a intervenção “Perspectivas regionais: Fortalecimento da Cooperação através da RADA/OTCA”. Ele destacou que a rede consolida um marco regional para a revitalização, proteção e conservação das águas amazônicas, promovendo ações conjuntas que reforçam o compromisso dos países com uma gestão sustentável. Puerta ressaltou um avanço estratégico da RADA, essencial para a cooperação regional: a adoção dos protocolos regionais de monitoramento para a Rede Hidrológica Amazônica (RHA) e a Rede de Qualidade da Água (RQA), fundamentais para orientar decisões baseadas em evidências confiáveis.
A diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA-Brasil) e também titular da Rede Amazônica de Autoridades de Água, Verônica Sánchez, ressaltou os resultados positivos alcançados pelos países na Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH) da Bacia Amazônica no âmbito da cooperação promovida pela OTCA. Ela destacou o acesso ampliado a dados hidrológicos dos oito países amazônicos por meio do Observatório Regional Amazônico (ORA) da OTCA, o que fortalece a capacidade regional de monitorar as águas superficiais da Amazônia e, assim, apoiar decisões para prevenir e mitigar eventos extremos, como cheias e secas na região.
No campo do monitoramento glaciológico, o chefe da Autoridade Nacional da Água (ANA) do Peru, José Genaro Musayón, chamou atenção para o forte impacto das mudanças climáticas no degelo das geleiras andinas — que, no caso do Peru, já resultou na perda de 53% da área glaciar. Em sua fala, destacou a instalação de quatro estações glaciológicas e hidrométricas nas cordilheiras de Vilcanota e Carabaya. Essas novas estruturas fortalecem a conectividade Andes–Amazônia ao fornecer informações essenciais sobre a perda de massa glaciar e o aporte hídrico durante a estação seca, permitindo acompanhar a dinâmica do degelo e apoiar o planejamento de adaptação das comunidades que dependem diretamente dessas águas.
- Oscar Puerta, diretor de Gestão Integral de Recursos Hídricos do Ministério de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia.
- Verônica Sanchéz, diretora presidenta da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA-Brasil)
- José Genaro Musayón, chefe da Autoridade Nacional de Água (ANA-Peru)
Ciência para compreender e proteger a Amazônia
O professor Naziano Filizola, do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), apresentou durante o evento um panorama contundente sobre a situação dos rios amazônicos, destacando que a ciência é o alicerce para compreender suas dinâmicas, antecipar riscos e orientar ações de gestão em escala regional. Com base em dados históricos, modelagem hidrológica e décadas de monitoramento, Filizola demonstrou que a Amazônia já enfrenta secas e cheias mais extremas, além de pressões crescentes decorrentes das mudanças climáticas — cenários que só podem ser identificados graças ao esforço científico contínuo.
Ele ressaltou que, sem redes de observação robustas, cooperação internacional e produção de conhecimento técnico-científico, a região permanece vulnerável à degradação ambiental e à instabilidade hídrica. Por isso, reforçou que investir em ciência e fortalecer sistemas de monitoramento é essencial para garantir a resiliência da Bacia Amazônica e proteger as populações que dela dependem.
Como consultor sênior do Projeto Bacia Amazônica – Implementação do PAE, Filizola também apresentou a Plataforma Regional Integrada de Informações sobre a Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH), que será incorporada ao Observatório Regional Amazônico (ORA) da OTCA. A plataforma representará a consolidação do Sistema Integrado de Monitoramento de Recursos Hídricos da OTCA, organizando o ciclo de gestão em três etapas: monitoramento e análise, cálculo e modelagem e cenários regionais, apoiadas por grupos técnicos e projetos-piloto nos países.
Dados para decidir: a base da cooperação hídrica amazônica
A importância de dados confiáveis para orientar políticas públicas foi um dos eixos centrais do debate. Arnaldo Carneiro, coordenador científico do Observatório Regional Amazônico (ORA), destacou que “nenhuma política pública de água, especialmente em uma bacia transfronteiriça do tamanho da Amazônia, pode ser eficaz sem uma base sólida de dados, monitoramento contínuo e análise integrada”. Ele explicou que o ORA cumpre o papel de reunir e harmonizar as informações produzidas pelos países amazônicos sobre os recursos hídricos da região, por meio de duas redes regionais de monitoramento — a Rede Hidrológica Amazônica (RHA) e a Rede de Qualidade da Água (RQA) — que somam 547 estações físicas e virtuais. Essas redes coletam informações essenciais para a gestão dos recursos hídricos, para atividades econômicas estratégicas e para o monitoramento e previsão de eventos extremos, como secas e inundações.
Abdelfettah Sifeddine, representante no Brasil do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), destacou a parceria do instituto com a OTCA no que concerne às capacitações e lembrou que o IRD coordena o Projeto HYBAM, cujas estações integram a RHA e alimentam o ORA com informações fundamentais sobre processos hidrológicos. Ele enfatizou ainda a necessidade de capacitação contínua e de interoperabilidade tecnológica para reduzir assimetrias entre os países da região.

Arnaldo Carneiro, coordenador científica do ORA
Financiamento para uma Amazônia resiliente
No bloco dedicado ao financiamento, Erwin De Nys, gerente de práticas da Unidade de Operações Ambientais para a América Latina do Banco Mundial, apresentou mecanismos inovadores para apoiar a gestão de águas transfronteiriças — tema estratégico para a Amazônia, onde rios, aquíferos e ecossistemas ultrapassam fronteiras e exigem soluções de longo prazo. Ele destacou que financiamentos fragmentados e de curto prazo não garantem a sustentabilidade necessária para fortalecer a resiliência hídrica da região e que fundos dedicados, como os Fundos de Bacia Transfronteiriça, permitem mobilizar capital climático, concessional e privado, ampliando escala e continuidade das ações. Como referência, citou o Trust Fund da Bacia do Nilo, que mobilizou mais de 200 milhões de dólares, ressaltando a importância de modelos financeiros capazes de sustentar a cooperação entre países que compartilham recursos hídricos.
Participação social para fortalecer a governança da água
O Líder de Relacionamento e Políticas da Aliança Águas Amazônicas, Dino Delgado, ressaltou que a participação social é indispensável para a governança da água na região. Ele destacou que decisões mais legítimas e eficazes surgem quando o conhecimento científico se articula ao saber das comunidades locais, povos indígenas e usuários da água, fortalecendo o diálogo entre governos, sociedade civil e instituições técnicas e contribuindo para uma Amazônia mais resiliente.
Projeto Bacia Amazônica na COP 30
Além do painel “Da Ciência à Ação”, o Projeto Bacia Amazônica participou de outros momentos estratégicos da COP 30, reforçando a centralidade da água nas discussões globais sobre clima e resiliência. No Evento Paralelo Oficial “Um Chamado Global pela Resiliência Hidrológica: Colocando a Água no Centro da Ação Climática”, organizado pelo Governo do Reino dos Países Baixos e pelo Instituto Internacional de Gestão da Água, a coordenadora regional Maria Apostolova apresentou a palestra “Resiliência da Bacia Amazônica: Gestão da Água, Ecossistemas e Uso do Solo”, abordando desafios e oportunidades para a gestão integrada dos recursos hídricos na região.
O Projeto também integrou outros dois eventos paralelos da conferência, ampliando o debate sobre governança hídrica, ciência e adaptação climática na Bacia Amazônica. No evento “Rios em Crise Climática: Soluções para um Futuro Sustentável”, promovido pelo Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), pela Rede Internacional de Organismos de Bacias Hidrográficas (INBO) e pela Initiative pour l’Avenir des Grands Fleuves (Iniciativa para o Futuro dos Grandes Rios), Apostolova apresentou as estratégias em curso para fortalecer a cooperação regional no âmbito da OTCA e promover uma gestão sustentável das águas amazônicas.
No evento “Dos Andes à Amazônia: Interdependência e Ações Inovadoras para a Adaptação Climática”, organizado pela Embaixada da Suíça no Brasil e pela CONDESAN / Iniciativa de Montanha dos Andes (AMI), a coordenadora participou do painel de debate “Quais lacunas e oportunidades existem para fortalecer a base de evidências sobre a conexão Andes–Amazônia e sua integração nas políticas de clima e biodiversidade? Como alianças estratégicas e mecanismos financeiros podem ampliar ações conjuntas na região? Que mecanismos de governança podem ser desenvolvidos para gerir de forma eficaz a interface Andes–Amazônia?”. Sua participação reforçou a importância de alianças estratégicas, mecanismos financeiros inovadores e arranjos de governança capazes de integrar as interdependências entre Andes e Amazônia às agendas de clima e biodiversidade.










