Como parte do Plano Amazônico de Capacitação da Rede Amazônica de Autoridades da Água (RADA), o Projeto Bacia Amazônica (OTCA/PNUMA/GEF) promoveu novas atividades de formação em hidroinformática, dados abertos e ferramentas digitais para fortalecer a Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH) na Amazônia. Com o apoio do Banco Mundial, o ciclo incluiu o curso Serviços de Dados Abertos e Hidroinformática e uma sessão dedicada aos avanços globais na previsão de vazões e inundações por meio de dados abertos e inteligência artificial.

O curso virtual sobre Serviços de Dados Abertos e Hidroinformática foi realizado em 13 de abril e reuniu 60 gestores de recursos hídricos dos Países Membros para explorar o potencial dos dados abertos e das novas ferramentas digitais aplicadas à gestão da água. Com duração de duas horas, o curso deu continuidade à capacitação realizada em fevereiro deste ano sobre o uso da plataforma Google Earth Engine (GEE) para a análise de dados aplicados aos recursos hídricos. Nesta edição, o foco esteve voltado às novas tendências em dados abertos e ao uso da hidroinformática como ferramenta estratégica para a gestão da água.

Ao integrar tecnologias da informação, modelagem computacional e ciência de dados à gestão dos recursos hídricos, a hidroinformática foi apresentada como um campo fundamental para modernizar o monitoramento e a análise da água, integrar diferentes fontes de informação e gerar subsídios estratégicos para o planejamento e a tomada de decisões.

Tecnologia e dados para enfrentar desafios crescentes

A segurança hídrica na bacia amazônica enfrenta desafios cada vez mais complexos, como o aumento da demanda por água, a intensificação da poluição e as mudanças no uso do solo, que impactam diretamente o ciclo hidrológico. A variabilidade e as mudanças climáticas ampliam esses efeitos, tornando mais frequentes eventos extremos, como secas e inundações.

Nesse cenário, a hidroinformática foi apresentada como um campo essencial para modernizar a forma como os recursos hídricos são monitorados e analisados, permitindo integrar dados e gerar informações estratégicas para o planejamento e a tomada de decisões.

Novas ferramentas ampliam capacidade de análise

Um dos principais destaques da capacitação foi a apresentação de portais e plataformas que reúnem dados abertos sobre hidrologia, clima e uso do solo, com aplicações relevantes para a bacia amazônica. Baseadas na combinação de tecnologias como satélites, drones, sensores, análise em nuvem e inteligência artificial, essas ferramentas permitem, por exemplo, visualizar e analisar informações sobre precipitação, dinâmica dos rios e mudanças na cobertura vegetal, apoiando o monitoramento e a tomada de decisões na gestão hídrica.

Segundo Nagaraja Rao Harshadeep, especialista sênior em meio ambiente do Banco Mundial, essas ferramentas estão transformando a gestão da água em escala global:

“Hoje conseguimos integrar grandes volumes de dados — desde medições em campo até informações satelitais de alta resolução — para entender o que está acontecendo nas bacias hidrográficas, com base em dados em tempo real e séries históricas. Sobre essa base integrada, a inteligência artificial permite análises mais completas e decisões mais rápidas, fundamentadas em evidências.”

Nesse sentido, ele destacou que esses avanços também dependem da articulação entre diferentes escalas de monitoramento, incluindo o monitoramento de base comunitária:

“Quando combinamos dados dos sistemas de monitoramento comunitário com observações feitas do espaço — como níveis dos rios, precipitação e mudanças no uso do solo — conseguimos uma visão muito mais completa e integrada das bacias hidrográficas.”

Debate destaca avanços e limitações no uso de dados para a gestão hídrica

A sessão também abriu espaço para perguntas dos participantes, evidenciando tanto o interesse quanto os desafios relacionados ao uso de dados e tecnologias na gestão dos recursos hídricos.

Entre os temas levantados, destacou-se a dificuldade de modelar fenômenos complexos, como os chamados “rios voadores” da Amazônia, ainda limitados pela falta de dados consolidados e de ferramentas capazes de analisar essa dinâmica de forma integrada.

Outro ponto abordado foi o transporte de sedimentos, considerado um dos aspectos mais desafiadores na análise hidrológica, especialmente pela necessidade de dados de qualidade e pelas limitações das ferramentas disponíveis, ainda sem soluções globais consolidadas.

Por fim, os participantes também perguntaram sobre a possibilidade de modelar a qualidade da água e os níveis de contaminação com o uso dessas ferramentas. Em resposta, Hrishikesh Patel (Hrishi) – especialista em dados espaciais do Banco Mundial – ressaltou que já existem avanços importantes nessa área:

“Atualmente, satélites como o Sentinel-3 e o Landsat 8 são utilizados com regularidade para avaliar a qualidade da água, em conjunto com dados coletados em campo.”

Previsão hidrológica e inteligência artificial

Como continuidade do Plano Amazônico de Capacitação da RADA, em 10 de junho foi realizada uma nova sessão sobre os avanços globais na previsão de vazões e inundações por meio de dados abertos e inteligência artificial. O encontro apresentou as plataformas GEOGLOWS e Google Flood Hub, voltadas a apoiar a previsão hidrológica, os sistemas de alerta precoce e a tomada de decisões na gestão dos recursos hídricos, especialmente em regiões com limitações de dados.

A iniciativa faz parte dos esforços do Projeto Bacia Amazônica para promover a inovação, o uso de dados e a transformação digital como ferramentas para uma gestão mais eficiente e sustentável dos recursos hídricos na Amazônia.

Notícias relacionadas