Às margens dos rios e lagos da Floresta Nacional de Tefé, no estado do Amazonas, Brasil, comunidades tradicionais mantêm modos de vida estreitamente ligados à floresta e às águas, com atividades como agricultura familiar, pesca e extrativismo. É nesse território da Amazônia brasileira que 26 famílias da comunidade São Raimundo do Moquental estão sendo beneficiadas por uma intervenção do Projeto Bacia Amazônica que combina captação e armazenamento da água da chuva nos domicílios com um sistema comunitário de abastecimento, em uma solução adaptada às condições locais.

A iniciativa ganha especial relevância diante dos eventos climáticos extremos que vêm afetando a região. Em 2023 e 2024, secas severas reduziram drasticamente os níveis dos rios na Amazônia brasileira, dificultando a navegação e o transporte de água, alimentos e outros suprimentos essenciais para comunidades ribeirinhas. Em 2023, no Lago Tefé, a onda de calor levou a temperatura da água a 39,1 °C, em um episódio que também provocou a morte em massa de botos-cor-de-rosa e tucuxis, duas espécies de golfinhos amazônicos.

Com mais de 865 mil hectares, a Floresta Nacional de Tefé é uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável, criada em 1989. Essa categoria de área protegida brasileira busca conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável dos recursos florestais e permite a permanência de populações tradicionais, que têm sua vida e suas atividades econômicas estreitamente relacionadas ao território.

Em São Raimundo do Moquental, as 26 famílias vivem em 23 domicílios. Serão instaladas 23 unidades familiares, cada uma equipada com sistema de captação da água da chuva, dispositivo de tratamento e reservatório com capacidade para 1.000 litros.

As unidades estarão integradas a um sistema comunitário complementar, composto por captação de outra fonte de água, tratamento simplificado, rede de distribuição e três reservatórios de 5 mil litros cada, totalizando 15 mil litros de capacidade de armazenamento.

Cada domicílio também receberá um banheiro de quatro metros quadrados, equipado com chuveiro, vaso sanitário, lavatório e sistema de fossa, além de uma pia de cozinha. Integradas ao sistema de captação, tratamento e distribuição de água segura, essas estruturas contribuirão para melhorar as condições de higiene, saneamento e saúde das famílias. A disponibilidade de água no próprio domicílio também reduzirá a necessidade de deslocamentos até a margem do lago para atividades cotidianas, uma mudança especialmente relevante para as mulheres, que estão entre as principais responsáveis por essas tarefas, além de diminuir a exposição aos mosquitos transmissores da malária.

A solução integra o Programa Cisternas, do Governo Federal brasileiro, política pública que promove o acesso à água para consumo humano e produção de alimentos no meio rural por meio de tecnologias sociais simples e de baixo custo. Na Amazônia, essas soluções incluem sistemas de captação de água da chuva adaptados às condições da região.

Além da infraestrutura, a intervenção em São Raimundo do Moquental envolve mobilização e capacitação das famílias, que participam do processo de implantação e são preparadas para a gestão, operação e manutenção do sistema.

Comunidade participa desde o início

A implantação do sistema começou pela mobilização e preparação das famílias. Entre 27 e 31 de julho, uma missão técnica realizada em São Raimundo do Moquental reuniu moradores, lideranças comunitárias e representantes das instituições envolvidas na intervenção. Além do cadastramento das 26 famílias e do georreferenciamento dos 23 domicílios, foram levantadas informações sobre as condições locais de abastecimento de água e os desafios logísticos para a instalação das estruturas.

Nos dias 29 e 30 de julho, representantes das famílias participaram de uma capacitação sobre gestão da água e saúde ambiental. Ao longo de dois dias, foram abordados temas como qualidade da água, prevenção de doenças, higiene e saneamento, proteção dos recursos hídricos, uso racional da água e funcionamento do sistema que será implantado. A formação combinou exposições dialogadas, rodas de conversa, dinâmicas e debates, valorizando também os conhecimentos e experiências dos moradores sobre o território.

A preparação para receber a nova infraestrutura inclui ainda orientações sobre sua operação e manutenção. Durante a capacitação, a comunidade iniciou a elaboração do Acordo Comunitário de Gestão da Água, que deverá definir coletivamente regras de uso, responsabilidades pela conservação e manutenção do sistema e formas de tomada de decisão.

“Mais do que instalar uma infraestrutura de acesso à água, esta intervenção busca construir, junto com as famílias, as condições para que a própria comunidade participe da gestão e cuide do sistema ao longo do tempo. A solução combina estruturas familiares e comunitárias adaptadas às condições da Amazônia, contribuindo para dar mais segurança ao abastecimento e melhorar a qualidade de vida das famílias”, afirma Adevaldo Dias, presidente do Memorial Chico Mendes, responsável pela execução da intervenção.

Da capacitação à implantação

Concluídas as etapas iniciais de mobilização, cadastramento e formação, a intervenção avança para a implantação das estruturas de abastecimento. A execução está a cargo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), no âmbito do Projeto Bacia Amazônica, enquanto a implantação das estruturas em São Raimundo do Moquental é realizada pelo Memorial Chico Mendes, em articulação com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão federal responsável pela gestão das unidades de conservação federais no Brasil, e com a Associação dos Produtores Agroextrativistas da Floresta Nacional de Tefé (APAFE).

A participação comunitária continuará durante a implantação, que será conduzida por profissionais especializados, com o envolvimento de moradores na construção das estruturas. A iniciativa busca, assim, associar a instalação do sistema ao desenvolvimento de capacidades locais para seu funcionamento e conservação ao longo do tempo.

Uma resposta local a um desafio amazônico

A intervenção em São Raimundo do Moquental integra as ações do Projeto Bacia Amazônica voltadas ao fortalecimento da resiliência diante da variabilidade e das mudanças climáticas. Nesse processo, a infraestrutura de abastecimento é associada à capacitação comunitária, preparando as famílias para gerir a água, conservar o sistema e participar das decisões sobre seu funcionamento.

Em territórios onde rios e chuvas condicionam o deslocamento, o abastecimento e os modos de vida, eventos extremos como as secas de 2023 e 2024 evidenciam a importância de ampliar as alternativas locais de acesso à água. O acesso regular à água de qualidade também contribui para a segurança alimentar e nutricional das famílias, ao favorecer condições adequadas de higiene, preparo dos alimentos e saúde.

A experiência na Floresta Nacional de Tefé poderá ainda contribuir com conhecimentos sobre soluções adaptadas às condições socioambientais da Amazônia, fortalecendo os esforços para ampliar a segurança hídrica e a capacidade de adaptação das comunidades da Bacia Amazônica.

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