A aplicação de dados abertos e ferramentas digitais na gestão hídrica foi o tema central de mais uma etapa do Plano Amazônico de Capacitação da Rede Amazônica de Autoridades de Água (RADA), promovida pelo Projeto Bacia Amazônica (OTCA/PNUMA/GEF) no dia 13 de abril de 2026. O curso virtual, intitulado “Serviços de Dados Abertos e Hidroinformática”, contou com o apoio do Banco Mundial e reuniu 60 gestores de recursos hídricos dos Países Membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

Com duração de duas horas, o curso deu continuidade ao treinamento realizado em fevereiro deste ano sobre o uso da plataforma Google Earth Engine (GEE) para análise de dados aplicados à água. Desta vez, o foco esteve nas novas tendências em dados abertos e no uso da hidroinformática como ferramenta estratégica para a gestão hídrica.

A hidroinformática, que aplica tecnologias da informação, modelagem computacional e ciência de dados à gestão da água, foi apresentada como um campo essencial para modernizar o monitoramento e a análise dos recursos hídricos, permitindo integrar dados e gerar informações estratégicas para o planejamento e a tomada de decisões.

Tecnologia e dados para enfrentar desafios crescentes

A segurança hídrica na bacia amazônica enfrenta desafios cada vez mais complexos, como o aumento da demanda por água, a intensificação da poluição e as mudanças no uso do solo, que impactam diretamente o ciclo hidrológico. A variabilidade e as mudanças climáticas ampliam esses efeitos, tornando mais frequentes eventos extremos, como secas e inundações.

Nesse cenário, a hidroinformática foi apresentada como um campo essencial para modernizar a forma como os recursos hídricos são monitorados e analisados, permitindo integrar dados e gerar informações estratégicas para o planejamento e a tomada de decisões.

Novas ferramentas ampliam capacidade de análise

Um dos principais destaques da capacitação foi a apresentação de portais e plataformas que reúnem dados abertos sobre hidrologia, clima e uso do solo, com aplicações relevantes para a bacia amazônica. Baseadas na combinação de tecnologias como satélites, drones, sensores, análise em nuvem e inteligência artificial, essas ferramentas permitem, por exemplo, visualizar e analisar informações sobre precipitação, dinâmica dos rios e mudanças na cobertura vegetal, apoiando o monitoramento e a tomada de decisões na gestão hídrica.

Segundo Nagaraja Rao Harshadeep, especialista sênior em meio ambiente do Banco Mundial, essas ferramentas estão transformando a gestão da água em escala global:

“Hoje conseguimos integrar grandes volumes de dados — desde medições em campo até informações satelitais de alta resolução — para entender o que está acontecendo nas bacias hidrográficas, com base em dados em tempo real e séries históricas. Sobre essa base integrada, a inteligência artificial permite análises mais completas e decisões mais rápidas, fundamentadas em evidências.”

Nesse sentido, ele destacou que esses avanços também dependem da articulação entre diferentes escalas de monitoramento, incluindo o monitoramento de base comunitária:

“Quando combinamos dados dos sistemas de monitoramento comunitário com observações feitas do espaço — como níveis dos rios, precipitação e mudanças no uso do solo — conseguimos uma visão muito mais completa e integrada das bacias hidrográficas.”

Debate destaca avanços e limitações no uso de dados para a gestão hídrica

A sessão também abriu espaço para perguntas dos participantes, evidenciando tanto o interesse quanto os desafios relacionados ao uso de dados e tecnologias na gestão dos recursos hídricos.

Entre os temas levantados, destacou-se a dificuldade de modelar fenômenos complexos, como os chamados “rios voadores” da Amazônia, ainda limitados pela falta de dados consolidados e de ferramentas capazes de analisar essa dinâmica de forma integrada.

Outro ponto abordado foi o transporte de sedimentos, considerado um dos aspectos mais desafiadores na análise hidrológica, especialmente pela necessidade de dados de qualidade e pelas limitações das ferramentas disponíveis, ainda sem soluções globais consolidadas.

Por fim, os participantes também perguntaram sobre a possibilidade de modelar a qualidade da água e os níveis de contaminação com o uso dessas ferramentas. Em resposta, Hrishikesh Patel (Hrishi) – especialista em dados espaciais do Banco Mundial – ressaltou que já existem avanços importantes nessa área:

“Atualmente, satélites como o Sentinel-3 e o Landsat 8 são utilizados com regularidade para avaliar a qualidade da água, em conjunto com dados coletados em campo.”

Participação e próximos passos

Como continuidade do ciclo de formação, está prevista a realização de um novo curso no dia 10 de junho, com foco no Google Flood Hub, plataforma voltada ao monitoramento e à previsão de inundações.

A iniciativa integra os esforços do Projeto Bacia Amazônica para fortalecer as capacidades técnicas dos países amazônicos e promover o uso de inovação e dados na gestão sustentável dos recursos hídricos da região.

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