Na região entre os rios Xingu e Iriri, conhecida como Terra do Meio, na Amazônia brasileira, áreas antes degradadas por ocupações ilegais voltam a se cobrir de floresta — e de novas possibilidades para quem vive ali. Localizada no município de Altamira, no Pará, a Terra do Meio é um mosaico de proteção socioambiental — fundamental para a biodiversidade e estratégico para conter o avanço do desmatamento.

As áreas restauradas enfrentavam dificuldades para recuperar sua vegetação original, onde a predominância de capins exóticos impedia o retorno da floresta nativa. Com a restauração de 50 hectares, realizada por meio do plantio de cerca de 175 mil árvores nativas nas Reservas Extrativistas dos rios Xingu e Iriri, a intervenção do Projeto Bacia Amazônica (OTCA/PNUMA/GEF), realizada em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Instituto Socioambiental (ISA), está em fase final, com uma última atividade de plantio prevista para abril. Mais do que recuperar áreas desmatadas, a iniciativa conecta restauração ecológica, geração de renda e fortalecimento comunitário, contribuindo também para a proteção dos recursos hídricos e para a gestão da água na região, tendo como base a estruturação de uma cadeia de sementes florestais e a implementação de um mecanismo de pagamento por serviços ambientais (PSA).

 

Esse processo começou há três anos, com o reflorestamento da primeira área da intervenção — 25 hectares na Reserva Extrativista do Rio Xingu, às margens do rio. O plantio envolveu 25 pessoas das comunidades que integram a reserva — homens, mulheres e jovens —, com assistência técnica do ISA e atividades educativas voltadas às crianças. O grupo coletou mais de 30 espécies de sementes florestais e as combinou com sementes de leguminosas e gramíneas usadas para melhorar a fertilidade do solo (adubação verde), formando a muvuca — técnica de semeadura direta que acelera a regeneração da vegetação ao reunir plantas de diferentes estágios de crescimento. A expectativa é que, em dez anos, a floresta esteja plenamente consolidada.

 

Os resultados observados ali vão além da paisagem: a área restaurada passou a produzir sementes que as próprias comunidades coletam e comercializam para outros projetos de restauração na Amazônia brasileira, criando uma nova fonte de renda associada à floresta em pé. A ribeirinha Marinalva Ribeiro da Silva, que mora ao lado da área restaurada, encontrou na coleta de sementes uma nova fonte de renda, que se soma a outras atividades tradicionais, como a pesca. Desde o plantio da área, do qual participou com o marido e os filhos, o casal passou a se dedicar também à atividade, garantindo maior estabilidade financeira para a família — além de mais tempo com as filhas menores.

“Para mim, a vida de coletora é boa, vale a pena. Nos dias de coleta, eu saio de casa de manhã e volto no meio da tarde, passo o resto do dia com as minhas filhas menores. Com essa atividade, também ajudo no sustento dos quatro filhos que estudam em Altamira”, conta.

 

Em visita técnica realizada em março à área de floresta restaurada na Reserva Extrativista do Rio Xingu, o Especialista em Recursos Hídricos e Saneamento Básico da ANA, Marcelo Pires, destacou outro aspecto central da iniciativa. Segundo ele, a ação articula com êxito a recuperação florestal e a proteção dos recursos hídricos do Xingu, contribuindo diretamente para o equilíbrio do ciclo hidrológico na região. Essa integração, avalia, é um dos principais fatores que tornam a experiência replicável nos demais países que integram a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), no âmbito da gestão integrada dos recursos hídricos da Bacia Amazônica. “Afinal, sem floresta não há água e sem água não há floresta”, afirmou.

Da coleta à comercialização: como funciona a cadeia de sementes florestais

A atividade de coleta de sementes, que hoje gera renda para 312 coletores — dos quais 53% são mulheres —, integra a Cadeia de Sementes Florestais, estruturada com a contribuição do Projeto  Bacia Amazônica no âmbito da Rede Terra do Meio — organização comunitária que articula a produção, o beneficiamento e a comercialização de produtos florestais oriundos das reservas extrativistas e terras indígenas da região.

A coleta não acontece de forma aleatória. No início de cada ano, a Rede Terra do Meio define, junto aos compradores, a demanda por sementes. A partir desses acordos, as quantidades são distribuídas entre as organizações locais, que mobilizam as famílias coletoras ao longo dos meses, de acordo com a disponibilidade das espécies em cada território. Esse planejamento permite alinhar o que a floresta pode oferecer com o que os projetos de restauração demandam, garantindo maior previsibilidade para as comunidades e eficiência na comercialização.

O trabalho de coleta, ponto de partida da cadeia, exige conhecimento do território e manejo cuidadoso, respeitando o tempo da floresta e garantindo que parte das sementes permaneça no ambiente, tanto para a regeneração natural quanto para a alimentação da fauna. Ainda nessa etapa, as sementes passam por uma primeira seleção e por um controle inicial de qualidade, fundamentais para garantir que atendam às exigências dos compradores e cumpram sua função na restauração.

Coleta de sementes na Resex do Rio Xingu (PA), atividade que exige manejo cuidadoso e conhecimento da floresta.

Para isso, os coletores que integram a cadeia recebem capacitação contínua. Elisângela Xipaya, técnica do ISA, explica que essas formações são centrais para o fortalecimento da atividade. “As capacitações ajudam a manter os coletores engajados e a ampliar a consciência sobre o papel das sementes na restauração. Quando entendem que cada semente coletada será destinada à recuperação de áreas na floresta amazônica, passam a valorizar ainda mais o trabalho que realizam”, afirma.

Depois da coleta, as sementes passam pelas estruturas comunitárias de gestão local, onde são recebidas, pesadas e organizadas — e onde as famílias recebem pagamento imediato, conforme valores definidos coletivamente. Esse é um dos pontos centrais da cadeia, que ajuda a reduzir a dependência de atravessadores e a dar maior previsibilidade de renda aos produtores. 

Nos últimos três anos, o Projeto Bacia Amazônica contribuiu para garantir o capital de giro dessas estruturas, fortalecendo a capacidade de pagamento imediato às famílias — que somou quase R$ 300 mil com aportes também de outros parceiros da Rede Terra do Meio — e a gestão da cadeia de sementes.

Na comunidade Morro Grande, dentro da Reserva Extrativista do Rio Xingu, a administração de um desses pontos de apoio se tornou uma importante fonte de renda para o casal Sinha Kuruaya e Alcione Freitas, que também atua na coleta de sementes. Em 2025, a renda obtida com a gestão local e a coleta de sementes chegou a cerca de 6 mil reais, valor que a família vem investindo na melhoria da casa. “A gente está comprando material para fazer um telhado novo. Antes era de palha, agora vamos colocar telha. Isso já ajuda a não precisar derrubar mais palmeira”, explica Sinha.

 

A partir desses pontos, as sementes seguem para escoamento até Altamira, em uma operação logística coordenada por cantineiros. Em uma região marcada por grandes distâncias e deslocamentos predominantemente fluviais, o transporte é feito em pequenas cargas, adaptadas às embarcações locais de capacidade limitada e às condições de navegação. O trajeto até a cidade pode levar dias. Em Altamira, na Casa de Sementes da Rede Terra do Meio, a produção é recebida, reavaliada e organizada para armazenamento. Ali, cada lote passa por nova triagem, é identificado com informações sobre espécie, origem e data de entrada e segue para armazenamento em condições controladas de temperatura e umidade.

O processo garante a padronização e a rastreabilidade das sementes, etapas essenciais para sua comercialização. “Quando a semente chega, a gente confere a qualidade, pesa, identifica e organiza por lote. Isso permite saber de onde veio e para onde vai”, explica Wenderson da Silva Santos, um dos gestores da Casa de Sementes.

Para Denise Graça, que também atua na gestão da Casa, a importância do espaço vai além da sua função técnica. “Ao armazenar essas sementes, a gente guarda a vida que elas carregam e todo o trabalho coletivo das comunidades”, afirma.

Francisco de Assis Oliveira, presidente da Rede Terra do Meio, destaca que a Cadeia de Sementes Florestais é uma das iniciativas mais importantes para a organização. “Ela protege a floresta, gera renda e garante a permanência das pessoas no território”, afirma. “É um trabalho feito com profissionalismo, em que as pessoas ganham sem destruir, mantendo o equilíbrio da floresta e garantindo a continuidade da vida que ela sustenta. O compromisso com a floresta é o que move esse trabalho. Porque, sem floresta, não existe Rede nem produtos para serem comercializados.

Pactuação do Mecanismo de PSA

Em 2024, a Rede Terra do Meio elaborou e implementou a primeira proposta de Mecanismo de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) voltado a povos e comunidades tradicionais, experiência que servirá como projeto-piloto para o estabelecimento do Programa Estadual de Pagamentos por Serviços Ambientais do Pará.

Nesse contexto, foi criado o Fundo Terra do Meio, um mecanismo comunitário de governança de recursos vinculado às economias da sociobiodiversidade, incluindo a Cadeia de Sementes Florestais, e abastecido por recursos de PSA e outras fontes. O Fundo permite às comunidades enfrentar emergências, investir em manejo, fortalecer estruturas coletivas e apoiar iniciativas de governança. Sua gestão é exercida por um comitê formado por indígenas, ribeirinhos, agroextrativistas, técnicos e pela diretoria da Rede, assegurando decisões participativas e transparentes. Esse arranjo fortalece a autonomia local e garante que os pagamentos por serviços ambientais sejam aplicados em benefício coletivo e na conservação da floresta.

Após um processo de pactuação iniciado em 2023, o regimento do Fundo foi formalizado em 2025, acompanhado de aportes financeiros — entre eles, R$ 50 mil provenientes do Projeto Bacia Amazônica. Esse marco inaugura a capacidade do Fundo de sustentar ações comunitárias de forma autônoma e participativa.

Fortalecendo a gestão das águas amazônicas

Com a última etapa de semeadura prevista para abril, na Reserva Extrativista do Rio Iriri, a intervenção do Projeto Bacia Amazônica — executado pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Instituto Socioambiental (ISA) — se aproxima da conclusão, totalizando 50 hectares restaurados nas reservas extrativistas dos rios Xingu e Iriri.

O projeto conseguiu articular, de forma consistente, a restauração florestal, a geração de renda e a criação de mecanismos de governança. Esse conjunto de diferentes estratégias é o que garante a sustentabilidade das ações no longo prazo”, avaliou o especialista da ANA, Marcelo Pires, ao final de sua visita técnica à Terra do Meio.

A experiência demonstra o potencial de integrar conservação ambiental, desenvolvimento local e proteção dos recursos hídricos, com capacidade de replicação em outros países da Bacia Amazônica, contribuindo para a consolidação de soluções sustentáveis e adaptadas às realidades socioambientais da região. Nesse contexto, afirma-se também como uma estratégia de fortalecimento da Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH) da Bacia Amazônica, implementada pelos Países Membros da OTCA.

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