Em abril, comunidades e instituições da região transfronteiriça entre Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil) deram um novo passo para fortalecer a proteção das águas subterrâneas que abastecem ambas as cidades amazônicas. Como parte de uma intervenção do Projeto Bacia Amazônica (OTCA/GEF/PNUMA), desenvolvida desde 2022 com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (MinAmbiente) da Colômbia e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) do Brasil, participaram de um workshop de monitoramento participativo e de atividades de campo voltadas ao fortalecimento das capacidades locais para a gestão sustentável do aquífero compartilhado.
O eixo central da intervenção foi a Avaliação hidrogeológica, de vulnerabilidade e de risco para o desenvolvimento de políticas de proteção e uso das águas subterrâneas na região transfronteiriça entre Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil), desenvolvida pelo Projeto Bacia Amazônica. O estudo incluiu a avaliação de poços de abastecimento localizados em residências, escolas, clubes e outras instituições da região e confirmou que, embora a disponibilidade de água subterrânea seja suficiente para atender às necessidades da população, sua qualidade apresenta variações importantes. Além disso, identificou poços com contaminação associada principalmente a deficiências no saneamento básico e áreas altamente vulneráveis à contaminação. Esses resultados evidenciaram a necessidade de fortalecer o monitoramento comunitário, a educação ambiental e as ações permanentes para a proteção do aquífero compartilhado.
Os resultados do estudo serviram de base para a etapa seguinte da intervenção. Entre os dias 18 e 27 de abril, o Projeto promoveu um workshop teórico-prático e jornadas de monitoramento participativo em propriedades de comunidades e instituições usuárias de água subterrânea. As atividades, realizadas em coordenação com o MinAmbiente e a ANA, buscaram fortalecer as capacidades locais para avaliar a qualidade da água, interpretar os resultados das medições e adotar boas práticas para a proteção do aquífero compartilhado.
- Oficina de socialização com comunidades da região transfronteiriça realizada em Leticia nos dias 16 e 17 de abril.
- Jornada de monitoramento participativo realizada na Universidade Nacional da Colômbia – Sede Amazônia, em Leticia.
Capacitação e monitoramento em campo
Realizado na Universidade Nacional da Colômbia – Campus Amazônia, em Letícia (Colômbia), o encontro teve como objetivo fortalecer as capacidades locais para a vigilância comunitária das águas subterrâneas compartilhadas entre Letícia e Tabatinga. A programação combinou sessões teóricas, dinâmicas participativas e exercícios práticos de monitoramento, durante os quais comunidades, instituições e usuários da água subterrânea aprenderam a utilizar sondas para medir a profundidade do nível freático, tiras reagentes e equipamentos para avaliar, em campo, parâmetros indicativos da qualidade da água. Posteriormente, aplicaram esses conhecimentos em poços de abastecimento localizados em residências e instituições previamente inscritas, onde realizaram medições, interpretaram os resultados e reforçaram boas práticas para a proteção sanitária dos poços e do aquífero.
Para muitas famílias, essa foi a primeira oportunidade de conhecer melhor a água que consomem diariamente.”Aqui temos um reservatório para consumo e preparo dos alimentos, mas não sabíamos se a água estava contaminada ou não. Agora, pelo menos, fizemos um teste e temos mais informações para cuidar melhor dela”, relatou Olga Oliveros, moradora de Letícia.
Entre os participantes estavam lideranças comunitárias e indígenas interessadas em compartilhar esses conhecimentos com outras comunidades.”Durante muito tempo consumimos água sem conhecer sua qualidade. Hoje levo comigo conhecimentos que poderei compartilhar com outras comunidades indígenas para que possamos proteger melhor nossas águas subterrâneas”, afirmou Manuel Morales, líder indígena da comunidade Murui do Km 11. O monitoramento realizado nos poços de sua comunidade também trouxe importantes aprendizados.”Dos quatro poços que avaliamos, três apresentaram resultados negativos e apenas um foi positivo. Para nós, isso é um alerta para termos mais cuidado e buscarmos formas de gerir muito melhor a água”, acrescentou Manuel Manuiama, também líder da comunidade murui.
A experiência também despertou interesse do lado brasileiro da fronteira. José Pereira, participante de Tabatinga, destacou que muitos moradores consomem água de poços sem conhecer sua qualidade e manifestou o desejo de que essa capacitação também chegue às prefeituras e à universidade, para que possam orientar a população sobre os cuidados necessários com as águas subterrâneas.
Mais do que adquirir ferramentas e conhecimentos, a experiência também transformou a forma como muitos participantes percebem as águas subterrâneas.”Muitas pessoas acreditam que, por estar debaixo da terra, a água já é limpa e própria para o consumo humano. Essa experiência nos mostrou que ela também é um recurso finito e que todos nós temos o dever de contribuir para sua conservação”, destacou Libaniel Echeverry, participante do workshop.
- Atividade de monitoramento participativo das águas subterrâneas realizada na comunidade indígena murui, em Leticia.
- José Pereira, participante de Tabatinga, acompanha as atividades de monitoramento participativo realizadas no poço de sua residência.
- Medição dos parâmetros de qualidade da água no poço de abastecimento de Libaniel Echeverry, participante de Leticia.
Para dar continuidade ao monitoramento comunitário, os participantes receberam kits de monitoramento e a Guia Prático para o Monitoramento Participativo das Águas Subterrâneas na Região Transfronteiriça entre Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil), elaborada no âmbito do Projeto Bacia Amazônica. O material reúne orientações metodológicas para que as comunidades possam monitorar o comportamento das águas subterrâneas em seus poços, registrar a variação dos níveis da água e da precipitação, além de realizar medições básicas de parâmetros indicativos da qualidade da água.
Monitoramento comunitário para a proteção do aquífero
A iniciativa busca lançar as bases para a implementação de uma rede de monitoramento participativo na região transfronteiriça entre Letícia e Tabatinga, promovendo uma participação mais ativa das comunidades no acompanhamento e na proteção das águas subterrâneas.
Além de ampliar o conhecimento sobre a qualidade e a disponibilidade da água na região, o processo também contribui para fortalecer a cooperação regional e consolidar o envolvimento das comunidades na proteção de um recurso essencial para a segurança hídrica da Amazônia.
O intercâmbio também despertou o interesse das novas gerações.”Foi muito interessante compreender como funcionam os sistemas hídricos na região transfronteiriça entre Letícia e Tabatinga. Levo comigo conhecimentos muito valiosos desta experiência e de todas as atividades realizadas”, comentou João Leandro Carvajal, estudante do Colégio José Eustasio Rivera, em Letícia.
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