A Colômbia abriu, no final de julho, o ciclo de Oficinas Nacionais Nexus WEFE, que será realizado nos oito Países Membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Depois de Bogotá, a iniciativa continuou em La Paz, Bolívia, e chegou, em 2 de setembro, a Quito, Equador. As oficinas dão início a um processo regional voltado à compreensão integrada das relações entre água, produção de alimentos, energia e ecossistemas e à incorporação dessas interdependências à gestão da Bacia Amazônica.

Realizadas no âmbito do Projeto Bacia Amazônica (OTCA/PNUMA/GEF), as oficinas têm como objetivo atualizar a Avaliação Nexus Água–Alimentos–Energia–Ecossistemas (WEFE) da Bacia Amazônica. A avaliação busca compreender como esses quatro sistemas se relacionam e como as decisões adotadas em um deles podem gerar efeitos positivos ou negativos sobre os demais. O processo incorpora informações, experiências e prioridades dos Países Membros e reúne representantes de diferentes setores para construir uma leitura conjunta dos desafios e das possíveis respostas.

A abordagem Nexus parte de uma constatação simples, mas decisiva para a gestão da Bacia: água, alimentos, energia e ecossistemas são sistemas interdependentes. A expansão da produção agrícola, por exemplo, aumenta a demanda por água e pode exercer pressão sobre áreas de floresta; a perda de ecossistemas, por sua vez, afeta a regulação hídrica da qual depende a própria produção de alimentos. Da mesma forma, as decisões sobre geração de energia podem produzir efeitos sobre os rios, a biodiversidade e as comunidades.

É precisamente esse conjunto de relações — incluindo as sinergias, os conflitos e as compensações entre setores — que é analisado nas oficinas. Os participantes combinam conhecimentos técnicos e experiência institucional com exercícios baseados em diferentes cenários climáticos e de desenvolvimento. A análise avança da identificação das interdependências para a discussão de alternativas de infraestrutura resiliente, soluções baseadas na natureza e trajetórias de energia sustentável. Ao final, cada país identifica mensagens e recomendações que posteriormente serão integradas à análise regional.

Na Colômbia, as pressões sobre o território atravessam diferentes setores

Realizada em Bogotá nos dias 27 e 28 de julho, a primeira oficina reuniu 18 participantes de instituições nacionais de diferentes setores. Entre as interdependências analisadas, ganhou especial relevância a relação entre agricultura e ecossistemas, marcada pela tensão entre a expansão da fronteira agropecuária e a conservação. A mineração ilegal, os cultivos de uso ilícito e o desmatamento também apareceram como pressões com efeitos sobre a água, os ecossistemas, os meios de vida e a gestão do território.

Participantes da Oficina Nacional Nexus WEFE, realizada em Bogotá, trabalham em grupo na análise das interdependências entre água, alimentos, energia e ecossistemas.

As discussões também apontaram desafios de governança e articulação institucional. Apesar das capacidades técnicas existentes, os participantes identificaram dificuldades de coordenação entre setores e níveis de governo, assim como para transformar o conhecimento disponível em ações no território. Entre as prioridades levantadas estiveram o fortalecimento da articulação institucional e a construção de uma visão sobre a Amazônia que transcenda as abordagens setoriais.

Entre as respostas discutidas estiveram as soluções baseadas na natureza, as ações de controle territorial, os sistemas de monitoramento e previsão hidroclimática e as alternativas de energia renovável para áreas isoladas.

Na Bolívia, a informação é fundamental para integrar os diferentes setores

Na Bolívia, a mineração apareceu como uma das principais pressões sobre o sistema hídrico e os ecossistemas amazônicos, especialmente devido à contaminação associada à mineração ilegal e à exploração de ouro. Nas discussões, seus impactos foram relacionados não apenas à qualidade da água e à conservação dos ecossistemas, mas também à governança e à capacidade de controle sobre os territórios.

Representantes de diferentes setores participam da Oficina Nacional Nexus WEFE, em La Paz, contribuindo para a análise integrada dos desafios relacionados à água, aos alimentos, à energia e aos ecossistemas.

Ao analisar as condições para enfrentar problemas como esse de maneira integrada, os participantes apontaram um desafio que não reside propriamente na capacidade técnica disponível, mas na articulação entre instituições e no intercâmbio de informações. A capacidade técnica foi avaliada de maneira mais positiva do que a governança, a coordenação institucional e o intercâmbio de dados.

A circulação da informação tornou-se, assim, uma questão central da oficina boliviana. Os grupos destacaram a necessidade de integrar, verificar e compartilhar dados que atualmente se encontram dispersos entre diferentes instituições. A questão não seria simplesmente produzir mais informação, mas criar mecanismos para que o conhecimento já existente possa circular entre setores e apoiar decisões integradas.

No Equador, a relação entre água e energia emerge como uma interdependência central

Os 30 representantes de instituições dos setores de água e meio ambiente, energia, clima, infraestrutura, gestão de riscos e planejamento territorial, reunidos na Oficina Nexus no Equador, identificaram a relação entre água e energia como a interdependência mais relevante para o país, seguida pela relação entre água e agricultura. Essa relação adquire especial importância em um país com forte dependência da geração hidrelétrica e, portanto, da disponibilidade de água.

Participantes acompañan las discusiones del Taller Nacional Nexus WEFE, realizado en Quito, que reunió a representantes de diferentes sectores para analizar las interdependencias entre agua, alimentos, energía y ecosistemas.

Essa vulnerabilidade ficou evidente durante a recente crise energética provocada por um período de forte estiagem. Na oficina, secas, inundações e problemas de qualidade da água estiveram entre os principais riscos identificados, enquanto o fenômeno El Niño apareceu de maneira recorrente por seus possíveis efeitos simultâneos sobre a segurança hídrica, energética e alimentar e sobre a infraestrutura. Nesse contexto, a segurança hídrica, a energia sustentável, a governança e a infraestrutura resiliente estiveram entre as principais prioridades apontadas pelos participantes.

Entre as respostas discutidas estiveram a melhoria da gestão dos sistemas de usos múltiplos — infraestruturas que combinam diferentes usos da água —, o fortalecimento da articulação da gestão dos recursos hídricos com os diferentes setores, a integração de informações entre instituições e o impulso a iniciativas de economia verde voltadas à conservação das florestas. Ao comparar as alternativas, a economia verde obteve as avaliações mais altas em desempenho ambiental, resiliência climática e benefício intersetorial, enquanto os sistemas de usos múltiplos se destacaram por sua contribuição para o crescimento econômico e por seus benefícios intersetoriais.

Das prioridades nacionais a uma visão regional

Embora cada oficina parta das condições e prioridades de seu país, os resultados são produzidos dentro de uma metodologia comum. As informações sobre interdependências, riscos, cenários e recomendações nacionais serão organizadas em matrizes comparativas para permitir a identificação de padrões comuns, convergências, divergências e oportunidades de cooperação transfronteiriça.

À medida que o ciclo avançar pelos oito Países Membros, esses resultados alimentarão a Avaliação Nexus WEFE regional da Bacia Amazônica, reunindo as análises nacionais para construir uma visão das relações entre água, alimentos, energia e ecossistemas em escala regional. O processo permitirá identificar tanto as particularidades de cada país quanto os desafios e as interdependências que transcendem as fronteiras.

Os resultados também deverão gerar subsídios técnicos e recomendações para o Programa de Ações Estratégicas (PAE) e para o suplemento da Análise Diagnóstica Transfronteiriça e do PAE (ADT/PAE), contribuindo para incorporar essas interdependências à gestão integrada da Bacia Amazônica.

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